A ULTILIZAÇÃO DA ULTRASSONOGRAFIA NA REPRODUÇÃO DE BOVINOS

A relação custo-benefício é a principal variável a ser observada na incorporação de novas tecnologias, em qualquer setor produtivo. Sem as informações corretas sobre esta condição, a aplicação de certas técnicas, em determinadas situações pode trazer resultados diferentes dos esperados, o que ás vezes faz com que diminua a credibilidade e o interesse para a mesma. A atual palavra de ordem no contexto da bovinocultura do país é a “eficiência”. Cada vez mais o controle das etapas relacionadas a produção se tornam imprescindíveis para o sucesso da exploração. Com o desenvolvimento acelerado da ultrassonografia aplicada a reprodução de bovinos, novas perspectivas surgem para um melhor controle destas atividades, visando a melhoria da performance reprodutiva dos rebanhos.

A utilização rotineira da ultrassonografia é um dos mais profundos avanços no campo da reprodução animal. O exame ginecológico mais acurado e detalhado, o diagnóstico de gestação precoce, a sexagem fetal, o diagnóstico de patologias no útero e ovários e o processo de aspiração folicular para produção de embriões “in vitro” são apenas alguns exemplos do potencial desta técnica, que além de não invasiva, fornece resultados precisos, rápidos e precoces. Sem dúvida uma das principais ferramentas no auxilio a uma boa eficiência. A ultrassonografia pode revelar, além de estruturas imperceptíveis a outros métodos de diagnóstico, a estrutura interna dos órgãos reprodutivos e também do concepto, com precisão de mensuração e outras características além de outros exames.

Para que tenha reais condições de proporcionar ganhos de desempenho reprodutivo, é importante que quem esteja manuseando o equipamento seja realmente capacitado para tal. Capacitação esta inicia pelo correto manuseio do equipamento e genital, interpretação correta das imagens geradas na tela e principalmente a tomada de decisão correta e exata frente a estas informações e esta nova realidade proporcionada pelo uso da tecnologia.

Aplicações na reprodução animal

A ultrassonografia tem diversas aplicações como método de diagnóstico em várias espécies, especialmente no exame do aparelho reprodutor. Dentre as vantagens da técnica está o fato de não ser invasiva, relativamente simples de ser efetuada, segura tanto para o animal como para o operador, poder ser realizada a campo e fornecer diagnósticos imediatos. Até o início da utilização da ultrassonografia em medicina veterinária, a avaliação semiológica do trato reprodutivo, e particularmente dos ovários de grandes animais, estava limitada aos achados oriundos da técnica de palpação retal, vaginoscópia e de técnicas invasivas, como a laparotomia e laparoscopia. As limitações destas técnicas são evidentes. No caso da palpação retal, pela subjetividade ou inexatidão na avaliação dos parâmetros e pela eventual lesão tecidual ocasionada pelos processos de laparotomia e laparoscopia.

O estudo da atividade folicular e luteal, com base em achados realizados após o abate ou retirada do órgão, impossibilitava o monitoramento sequencial das estruturas ovarianas ao longo do ciclo estral. A ultrassonografia transretal, por ser uma técnica não-invasiva e permitir a visualização de estruturas de maneira bem correlata à imagem de seu corte anatômico, permitiu a superação de grande parte destas limitações. A técnica de ultrassonografia transretal demonstrou ter múltiplas aplicações na avaliação morfológica e funcional do aparelho reprodutor feminino em equinos e bovinos e também em outras espécies. O uso do ultrassom possibilitou grandes avanços no estudo da fisiologia ovariana, particularmente na caracterização do padrão de crescimento folicular, desenvolvimento, manutenção e regressão luteal, e ocorrências durante a fase inicial da gestação.

Avaliações ginecológicas

Útero: Deve-se ajustar a posição do transdutor para obter uma boa imagem do corno uterino. Em geral, uma visão do corno é mais útil em seções sagitais, pois seções angulares são mais difíceis de interpretar. Seções transversais podem auxiliar no diagnóstico de algum conteúdo na luz. Um exame sistemático dos cornos uterinos é recomendado iniciando-se pela cérvix e progredindo distalmente ao longo de cada um dos cornos uterinos. A aparência ultrassonográfica do útero e das estruturas presente nos ovários auxilia a determinação do estágio do ciclo estral. A ecotextura uterina é relativamente uniforme durante o diestro, mas torna-se muito mais grosseira próxima ao momento do estro. Os fluidos intra-uterinos nos casos de metrite ou piometra têm graus variados de eco densidade variando de um aspecto floculento até intensamente branco. Pelo contrário, fluido intra-uterino fisiológico é totalmente não-ecóico. Como a fêmea bovina pouco acumula material no útero nos casos de infecção uterina, nem sempre a ultrassonografia e eficiente para detecção desta patologia.

Ovários: A ultrassonografia é o principal método de avaliação da dinâmica de desenvolvimento folicular. Os folículos ovarianos aparecem como estruturas não eco-ecoícas, geralmente como uma borda delgada. Os folículos podem parecer irregulares devido à compressão por outras estruturas ovarianas. O corpo lúteo é facilmente detectável um ou dois dias após a ovulação. Numa fêmea ciclando, o corpo lúteo regride alguns dias antes do estro. O corpo lúteo (CL) é geralmente visível aproximadamente até a ovulação subseqüente (às vezes até dois ou três dias após a próxima ovulação). Daí em diante, o CL que sofreu lise não pode ser distinguido do estroma ovariano. Uma cavidade central se forma em aproximadamente 70% dos CL nos dias 6 a 15 após sua formação. As cavidades centrais não possuem efeito significativo sobre fertilidade, duração do ciclo ou concentração plasmática de progesterona.

Figura 1. Imagens ultrassonográficas de útero não gestante e dos ovários (cortesia: Biotran LTDA)

Folículos ovarianos císticos têm paredes de espessura variável, desde muito finas (cisto folicular) até vários mm de espessura (cisto luteínico). Um folículo ovariano cístico pode ser difícil de distinguir de um folículo ou de um CL com uma grande cavidade. Geralmente, um cisto terá pelo menos 20mm de diâmetro. Folículos ovarianos císticos não são estruturas estáticas. Pode haver mais do que um folículo cístico presente e, ao longo do tempo, um folículo cístico regredir enquanto que outro aumenta em tamanho. Geralmente não existe corpo lúteo presente.

Figura 2. Imagens de ovários bovinos em diferentes situações “não fisiológicas” (cortesia: Biotran LTDA)

Na prática, em vacas não gestantes, a ultrassonografia se presta para avaliação de atividade folicular e/ou luteal, triagem de animais pata protocolos hormonais ou sincronização de estro, diagnóstico de várias patologias, avaliação do potencial para produção de embriões por TE ou FIV, além de outras.

Diagnóstico de gestação

Trata-se de uma das aplicações mais rotineiras da ultrassonografia na reprodução de bovinos. O ultrassom reúne praticamente todos os requisitos técnicos básicos de um bom método para diagnóstico de gestação. É seguro, fornece resultados rápidos, é precoce e não é lesivo a mãe, feto ou operador.

Em qualquer método de diagnostico de gestação em bovinos, o que principalmente interessa ao técnico na prática, ou seja, a maior atenção deve ser sempre dispensada às fêmeas não gestantes. É imprescindível que para cada um destes animais seja feito um exame minucioso de todo o genital seguido de uma recomendação de qual procedimento executar para tornar esta fêmea gestante o mais rápido possível. Neste quesito, a ultrassonografia é insuperável, pois além de permitir um diagnóstico acurado e precoce, permite naquelas fêmeas não gestantes uma excelente avaliação de todo o genital.

O diagnóstico de prenhez com ultrassom geralmente não é acurado antes do 25º dia. Antes deste período dia é difícil detectar conteúdo característico de gestação no interior do útero. O próprio embrião dificilmente pode ser detectado antes do 25º dia. Em condições de campo, um operador experiente com um bom equipamento deve ser capaz de detectar o embrião ao 28º dia, na maioria das vacas. O embrião localiza-se na base da primeira curvatura do corno uterino. Neste período embrião está acoplado à face dorsal do lume uterino. Antes desta fase, o embrião está em íntima aposição ao endométrio e encontra-se circundado por uma pequena área circular de fluido. Após o 25º dia, a detecção do fluido cório-alantóico é indicativa de prenhez. Em situações normais, onde não há indício de perda de gestação, o diagnóstico de gestação será dado pela presença de quantidade característica de líquido (completamente anecóico) no útero, além de distensão da parede deste órgão.

A detecção do próprio embrião, com o batimento cardíaco é o método mais confiável de verificar a viabilidade do feto. Isto porém deverá ser feito apenas quando se suspeitar de alguma anormalidade. Acima de 35 dias de gestação é possível a clara visualização do feto, que nesta fase se encontra mais distante (solto) do endométrio. Com aparelhos de boa resolução é fácil a percepção dos batimentos cardíacos e com isto identificar a viabilidade fetal.

Figura 3. Imagens ultrassonográficas de gestações bovinas em diferentes idades (cortesia: Biotran LTDA)

Sexagem fetal

A sexagem fetal tem apresentado um demanda crescente com o desenvolvimento da ultrassonografia em bovinos. Ela pode ser utilizada para eliminação da prenhez de um sexo indesejável, geralmente machos em rebanhos leiteiros, comercialização de receptoras de embrião com prenhez de determinado sexo, programação de formação de planteis etc.

O diagnóstico do gênero fetal baseia-se na determinação da localização do tubérculo genital (TG). Esta estrutura existe nos fetos de ambos os sexos. Na fêmea dará origem ao clitóris e no macho originará o pênis. O TG é uma estrutura bilobulada, eco-densa de aparência muito característica. Localiza-se inicialmente sobre a linha média, entre os membros posteriores, detectada a partir do 50º dia de gestação. Até esta idade não é possível detectar diferenças em fetos macho ou fêmea. A partir do 55º dia de gestação inicia a migração do tubérculo. Na fêmea o TG migra a uma pequena distância em sentido posterior (ventral à base da cauda) e torna-se o clitóris. No macho, o TG migra uma distância maior em sentido anterior, ate imediatamente posterior ao cordão umbilical, e torna-se o pênis. O acurado diagnóstico do sexo fetal é possível aproximadamente entre o 55º e o 90º dia ou mais tarde, desde que se tenha acesso para visualizar as áreas corretas.

Figura 4. Imagens ultrassonográficas de fetos para sexagem (cortesia: Biotran LTDA)

Guia para punção folicular de oócitos

Outra aplicação importante da ultrassonografia. Pode-se afirmar que a técnica de produção de embriões in vitro tornou comercial com o desenvolvimento da aspiração guiada pelo ultrassom (OPU). Esta técnica reduziu sobremaneira os riscos potenciais de obtenção de oócitos, por ser pouco invasiva. Potencialmente podem ser aspirados todos os folículos visíveis de acordo com a resolução do equipamento. Utiliza-se probe geralmente com tecnologia micro-convexa que é colocada via vaginal, acoplada a uma guia de punção. Requer muita habilidade do técnico que manuseia o equipamento, a fim de evitar lesões nos órgão genitais, principalmente ovários. Vários trabalhos têm procurado adequar o ritmo de coleta de oócitos no sentido de maximizar a produção e minimizar as lesões que a técnica provoca na fêmea doadora, além de desenvolver protocolos de preparação visando máximo aproveitamento do potencial de cada doadora.

Figura 5. Equipamentos utilizados (a), Imagens ultrassonográficas durante a punção folicular (b) para a técnica de aspiração e oócitos obtidos (c)

Considerações finais

A ultrassonografia revolucionou a avaliação do genital de fêmeas de grande porte. Com esta técnica foi determinado o padrão de desenvolvimento folicular que auxiliou o desenvolvimento de procedimentos mais avançadas de manipulação da fisiologia, como superovulação, sincronização de cio, Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) e outras. Além disto permitiu-se melhorar a avaliação de várias patologias e a realização do diagnóstico de outras, antes impossível. É capaz de avaliar de estruturas muito pequenas, a partir de 1mm, não somente na superfície dos órgãos, mas também no interior dos mesmos. Aumentaram sobremaneira as informações que podem ser obtidas, porém não diminuiu a necessidade de conhecimentos sólidos de anatomia, fisiologia e endocrinologia, imprescindíveis para interpretar esta maior gama de achados. Quanto maior o número de informações a serem relacionadas, maior a necessidade de conhecimentos para a elaboração do diagnóstico preciso. A ultrassonografia auxilia na geração e necessita de conhecimentos básicos de endocrinologia e fisiologia para quem utiliza a técnica. Somente com estes conhecimentos e habilidade manual, a aplicação da técnica deixará de ser feita de forma empírica e poderá auxiliar no desempenho reprodutivo dos planteis.

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